VIVER BEM

Pequenas bombas-relógio

As crianças também podem sofrer de ansiedade. Saiba como prevenir e reconhecer o problema em seu filho

Publicado em 15/06/2008 – JENNIFER KOPPE JENNIFERK©GPZETADOPOVO.COM.EIR

Sentir-se ansioso diante de um problema, de uma decisão ou de uma nova experiência é natural. Tanto adultos quanto crianças precisam lidar com a sensação de vez em quando. Ficamos apreensivos, o coração acelera e a expectativa é grande.

Até mesmo os bebês sofrem com crises de ansiedade. A partir dos 8 meses de idade já podem tê-las quando se separam – mesmo que por alguns minutos – dos pais.

De acordo com o pediatra Cícero Alaor Kluppel, especialista em homeopatia e acupuntura, todos nós sentimos a chamada ansiedade existencial. “É um sentimento que nos impulsiona, que nos movimenta na direção de realizar algo ou de ter alguma coisa. Sentir fome, por exemplo, é uma forma de ansiedade. Fazemos o que for preciso para saciá-la”, explica.

A ansiedade que sentimos diante das mudanças e das novidades também é comum em crianças. O primeiro dia de aula, a separação dos pais e o nascimento de um irmãozinho são algumas situações que causam insegurança nos pequenos, já que eles não sabem o que vai acontecer no futuro.

O problema é quando essa ansiedade se torna crônica, uma doença que se manifesta por meio de sintomas físicos, entre eles pressão arterial elevada, dificuldade de concentração, batimentos cardíacos acelerados, insônia, dor de cabeça, falta de ar, náuseas, vômitos e até diarréia. No caso das crianças, o simples fato de terem preocupações constantes e exageradas já deve ser considerado um sinal de alerta, por não ser um comportamento típico dessa fase.

A ansiedade infantil tem diversas origens. Pode ser causada por problemas psicológicos, neurológicos, fatores genéticos e até mesmo doenças de tireóide e infecções. A principal causa, entretanto, é a sobrecarga de atividades e obrigações. “As horas que as crianças passam na escola aumentaram e o tempo livre é tomado por aulas de inglês, natação, informática, dança… Sem falar na cobrança de pais, familiares e professores em relação ao desempenho delas”, enumera o pediatra, A ansiedade dos pais também pode ser responsável pela manifestação do distúrbio nos filhos. “A ansiedade é a doença mais contagiosa do mundo”, comenta Kluppel.

Casos extremos da doença também podem levar ao desenvolvimento de transtornos como o obsessivo-compulsivo (TOC), fobias e ataques de pânico.

O diagnóstico da ansiedade em crianças é feito através da observação. Kluppel explica que, como as crianças têm dificuldade de elaborar o que sentem, costumam manifestar os sintomas de maneira mais clara que os adultos.

O tratamento mais indicado para a ansiedade infantil é a psicoterapia. O médico explica que, em muitos casos, uma boa conversa com a criança ou com os pais já é suficiente para controlar os sintomas. O uso da homeopatia também é recomendado. Medicamentos controlados, como os antidepressivos, só devem ser receitados para casos muito graves.

Pequenos ioguis

Respirar corretamente – com o uso do diafragma – também é um santo remédio para controlar as crises de ansiedade. Foi o que o instrutor de ioga Moisés Santos, especialista em psicopedagogia, descobriu por experiência própria. ‘Eu era executivo de uma multinacional e cheguei a ter tuberculose por causa do estresse. Quando comecei a praticar ioga, entendi a importância da respiração para a saúde e descobri que, como eu, muitos não sabem respirar corretamente, independentemente da idade”, conta.

O instrutor explica que as crianças respiram espontaneamente quando são pequenas, mas a partir dos 3 anos, é comum que elas percam essa capacidade e comecem a tensionar a região do diafragma, principalmente quando estão com raiva ou medo. “Cr músculo sofre um encurtamento e entra menos ar em nosso organismo causando mal-estar.”

Em 2001, Moisés Santos desenvolveu o projeto educacional Respire Fundo, que tem como objetivo ensinar exercícios de respiração do ioga a crianças para reduzir a ansiedade e melhorar o seu desempenho escolar. Em uma pesquisa que realizou em uma escola classe média alta do Rio de Janeiro, o professor entrevistou 269 estudantes de quinta a oitava série e do ensino médio e descobriu que um em cada três jovens sofria de ansiedade . As principais queixas entre os estudantes eram baixa auto-estima, dores de cabeça, dificuldade de concentração, insônia, medo, insegurança e agitação mental.

Entre os meninos, 30% faziam tratamento psicológico e 3% usavam antidepressivos. Entre as meninas – que, de acordo com o estudo, são as que mais sofrem de ansiedade -, 31% faziam tratamento psicológico e 10% tomavam medicação controlada.

Após realizar os exercícios de respiração com os jovens cariocas, todos disseram se sentir mais calmos e aliviados.

Em Curitiba, o Respire Fundo está sendo colocado em prática nas escolas Rapunzel e Faz de Conta. As aulas não levam mais do quinze minutos e trabalham com posições básicas do ioga como a da cobra e do camelo – que abrem a região torácica – e com atividades como a respiração do fogo, que aumenta o contato do ar com os pulmões. “Também trabalhamos com gestos e valores do ioga que ajudam as crianças a lidar com situações de estresse com mais leveza. É uma espécie de alfabetização interior. Elas aprendem a olhar para si desde pequenos”, explica Moisés.

Pais e professores percebem aos poucos uma mudança de comportamento das crianças. “É um processo gradativo, mas percebo que aumentou a capacidade de concentração e atenção em alguns, além da consciência corporal”, conta a professora da escola Faz de Conta, Vanisse Maria Rodrigues Alves. A professora universitária Cláudia Moro Barra, mãe da aluna Giuliana, de 5 anos, também notou os benefícios. “Os exercícios ainda não se tornaram parte da rotina dela, mas é só falar das aulas do tio Moisés para ela lembrar de respirar corretamente e alinhar a postura. Ela se concentra mais nos seus próprios movimentos e consegue agir com mais tranqüilidade.”

Para o pediatra Cícero Kluppel, exercícios corporais e de respiração são muito eficientes para o controle da ansiedade, desde que as aulas sejam lúdicas e prazerosas, e não sejam encaradas corno obrigação. “As crianças precisam se movimentar e participar de atividades criativas. O videogame, por exemplo, é um dos maiores geradores de ansiedade nas crianças, por ser estático”, alerta.

Serviço

Moisés Santos (instrutor de ioga e psicopedagogo), fone (41) 3019-0239 / Cícero Alaor Kluppel (pediatra, homeopata e acupunturista), fone (41) 3024-3242.