Embora tenha consciência de que o que aconteceu comigo não acontece com todas as crianças do mundo, acredito ser significativo contar um pouco da minha vivência porque sei de muitas crianças de 3 a 4 anos, que, como eu, estão fazendo uma história diferente.

Antigamente, há mais ou menos cinqüenta anos, crianças de nossa idade não tinham muita opinião. Quase não eram ouvidas, e lhes era falado o suficiente para que aprendessem a ser gente grande.

Na maioria das famílias que minha avó conhecia, as crianças de minha idade tinham outros irmãos de idades próximas, com os quais brincavam e aprendiam mais algumas coisas.

Poucas crianças freqüentavam escolas de Educação Infantil, pois estas ainda existiam em número reduzido.

Grande parte das mães não trabalhava fora de casa, e as que trabalhavam profissionalmente procuravam fazer uma atividade que lhes permitia também atender as crianças.

A televisão era uma novidade, e minha avó conta que era possível ver melhor as riscas brancas e pretas do que as imagens que ficavam atrás delas.

Às crianças como eu não era permitida a exploração de aparelhos, como a própria televisão, o rádio, o projetor de filmes, a máquina fotográfica e outros.

As crianças eram mais controladas pelos pais, e muitas delas eram quietas, não falavam muito e não tinham espaço para argumentar com os mais velhos. A elas era dado o espaço de brincar com os brinquedos e com as novidades que encontravam no quintal. Corriam e andavam somente onde era muito seguro e quando tinha algum adulto para lhes orientar. Isto não quer dizer que não aconteciam acidentes. Minha avó me conta sobre vários, que ocorreram com ela e com suas irmãs.

Costumavam aprender as coisas de forma sem graça, meio sem movimento. Quando iam para a escola, aprendiam o nome das cores, das formas, tamanhos e espessuras, entre outras noções, como distância, peso, etc.; e nem podiam chegar perto das letrinhas. Naquele tempo, as crianças aprendiam a ler somente com 7 anos.

Minha avó me disse que com 3 anos fazia coisas bem fáceis: quebra-cabeça de duas peças, desenhos com pedra de carvão e tijolo, pinturas a dedo, modelagem com argila ou massa de farinha, brincadeiras de mãe-pega e esconde-esconde. Achei engraçado; fiquei pensando como seria um quebra-cabeça, sem quebrar a cabeça, pois só com duas peças é muito fácil; pensei também na sujeira que é pintar com os dedos, mexer no barro, carvão, etc. Acho bem melhor brincar com meu carrinho, meus homenzinhos, meus monstrinhos e meu computador. Para que se sujar tanto?

Hoje, nós, crianças de 3 a 4 anos, estamos vivendo num mundo diferente. Um mundo no qual as coisas acontecem muito rapidamente; a linguagem é muito utilizada pelos adultos para nos ensinar coisas que, cá para nós, nem sempre são pertinentes. Nós, crianças, somos respeitadas, temos opinião, e nossa opinião é ouvida, às vezes até demais.

Quase todos nós somos filhos únicos e alguns “raspa de tacho”, como diz minha avó quando quer se referir aos filhos que nascem depois de seus irmãos estarem adultos. Outros possuem, quando muito, um irmão ou irmã para perturbar.

Muito cedo vamos para a escola; começamos no berçário e seguimos em frente. A maioria de nós tem uma mãe e uma madrasta; um pai e um padrasto; além de avós jovens, tios, tias, etc. Apesar de tanta gente, muitas vezes ficamos sós. Todos, neste mundo do instantâneo, trabalham muito, e ninguém pode ficar conosco.

No meu caso, fico com uma babá que, como todos, trabalha muito e é paga para ficar comigo. Não consigo entender por que a mamãe sai de casa para trabalhar e me deixa; a babá sai da casa dela para trabalhar e deixa sua filha na creche. Não seria bem mais fácil se cada uma ficasse na sua casa e cuidasse de seus filhos? Os adultos às vezes complicam umas coisas, e a gente fica sem entender; o pior de tudo é que eles pensam que a gente entende.

O mundo anda tão instantâneo e econômico que, com um rápido beijinho de boa noite, nós, crianças, conseguimos sobreviver por mais um dia sem beijo, isto se agüentarmos acordados até nossos pais chegarem no dia seguinte. Se isto não ocorrer, temos que, instantaneamente, transformar a saudade num aumento de garantia daquele beijo de anteontem.

Fico com muita pena de meu pai e minha mãe: como todos os adultos, trabalham tão intensamente que o tempo que sobra para os filhos, no fim de semana, precisa ser ocupado para o descanso e para as compras. Se não for assim, eles não agüentam a semana seguinte.

Eu, por exemplo, naquelas horinhas que sobram depois que meus pais já descansaram, passo o Sábado no shopping e o Domingo no supermercado.

Por sorte, a TV de hoje já é mais desenvolvida, as imagens são bem nítidas e coloridas, e os programas interessantes. A exploração, pelas crianças, é liberada. Eu não me aperto: sei ligar a TV, o vídeo, o computador e o videogame. Isto é muito bom, pois o tempo que fico em casa pode ser ocupado por estas atrações, e eu fico cada vez mais sabido.

Sei, por exemplo, cantar músicas que falam de “tigrões”, de “tapinhas”, de “bundinhas”, de “bundões”, de “boquinha da garrafa” e de “poposudas”. Embora não entenda o significado destas palavras, sei que quando canto essas músicas, as pessoas acham graça, mas quando as chamo por estes nomes, me mandam calar a boca.

Além disto, assisto tantos desenhos quantos eu desejar, pois papai e mamãe não estão em casa, e a babá até gosta que eu fique quietinho. Assisto desde coisas próprias para minha idade até cenas de muita violência. Lutas de raios, que depois tento imitar com a babá, na escola, com o papai, e todos ficam bravos comigo.

Gosto muito de assistir fitas de vídeo de pequenos monstros, que passaram a ser maus ídolos por que, rapidamente, instantaneamente, são capazes de se transformar em seres do bem ou seres do mal.

Tenho coleguinhas que adoram ser “do mal” e, por isto, dão chutes, empurrões, falam palavrões, puxam os cabelos, discordam de tudo que os adultos falam e fazem tudo que “pessoas do mal” são capazes de fazer.

Na escola, toda a energia que temos, e que é concentrada diante de tantos aparelhos caseiros, é dirigida, muitas vezes, não para atividades, e sim para “passividades”. Todos precisam sentar nas cadeirinhas, trabalhar nas mesinhas, fazer a mesma coisa, ao mesmo tempo. Quando quero pintar, tenho de lanchar, por que é hora; quando quero modelar, tenho de desenhar, porque é a hora.

Em casa, posso decidir, desde que não vá para a rua sem a babá; na escola, tenho de repetir o que a “tia professora” deseja. Até parece que a escola não se incomodou com toda a evolução do mundo.

Que hora vamos correr, pular, sentar? Somente na meia hora do recreio? Quando vamos brincar espontaneamente, com nossos corpos? E a nossa imaginação, vai ser fruto somente da imagem visual e não, também, da imagem que resulta da experiência? O faz de conta e as histórias, vão ser apagadas pela linguagem difícil que estamos utilizando? Tudo isto, no mundo do instantâneo, só é possível com hora marcada?

Vovó diz que esta idade que temos nunca foi muito fácil no desenvolvimento infantil, mesmo cinqüenta anos atrás. Também conta que há autores que se referem a ela como “adolescência da infância”, idade na qual a criança percebe sua individualidade e, por isto, quer experimentar uma autonomia maior, para tristeza dos pais que ainda querem proteger seus “filhinhos”.

Nos dias de hoje, esta tal “adolescência da infância” parece ser mais tumultuada, porque nós, crianças de 3 a 4 anos, temos uma linguagem muito desenvolvida e, além das crises de birra, somos capazes de enlouquecer nossos pais com argumentos, nem sempre fundamentados, para que continuem atendendo todos os nossos desejos, pelo menos naquele tempinho que estão conosco. Percebo que lidamos bem com a culpa que papai e mamãe sentem por nos darem a vida e não poderem estar conosco.

Além de dominarmos melhor a palavra do que as crianças de antigamente e de manipularmos melhor os aparelhos modernos, somos, em muitos casos, muito ousados e acabamos fazendo coisas perigosas que, às vezes, atentam para nossa saúde. Pensamos que podemos muito mais do que podemos e passamos esta mensagem para os mais velhos, que acabam cobrando de nós atitudes para as quais não estamos preparados.

Estou preocupado com esta história que nós, crianças de 3 a 4 anos, estamos escrevendo junto com nosso pai, nossa mãe e muitas de nossas professoras. Nós, crianças, estamos muito soltas e sentimos necessidade de limites. Limites que deixem para nós só as decisões do nosso tamanho.

Com 3 a 4 anos, não posso ficar responsável pelo meu banho, meu uniforme, meus brinquedos, meu lanche quando fico sozinho em casa. Talvez dos brinquedos eu dê conta; porém, ainda preciso de um adulto para me lembrar dessa organização.

Será que é bom para o meu desenvolvimento levantar pela manhã e, imediatamente, ligar a TV; decidir a programação que vou assistir; comer  bombons no lugar do café da manhã; decidir o restaurante para toda a família, nos finais de semana; comprar 3 caixas de chocolate e um carrinho depois de uma boa birra; decidir onde vou almoçar, mesmo sem ser convidado; escolher tomar ou não banho antes de dormir?

Esta história que estamos escrevendo é muito diferente daquela escrita há cinqüenta anos. Estamos sem limites mas, em compensação, somos mais falantes, mais pensantes, mais “aprontantes” e mais criativos.

Senhores pais e professores, por favor nos cuidem!!!

Somos crianças do mundo do instantâneo; mundo no qual o processo não é percebido a “olho nu”, como diz a vovó.

Somos crianças que nos desenvolvemos com uma rapidez incrível, mas que continuamos precisando ser crianças, brincar, contar com pai e mãe, sentir segurança, receber carinhos e aprender.

Somos da espécie humana e somente com sua ajuda poderemos nos transformar em Seres Humanos.

Por favor nos cuidem, por que somos os governantes de amanhã e, sobretudo, porque somos as CRIANÇAS DE HOJE!