Viver, um jogo com leis e “de regras” !

Se viver pode ser considerado um jogo, com certeza ele é um jogo com regras. Como todo jogo, a vida tem seus componentes, o objetivo esperado e algumas estratégias básicas para garantir o bom desempenho do jogador. Se continuarmos fazendo analogia entre viver e jogar, concordaremos que apesar de todo um planejamento prévio, o jogo se decide à medida que o jogamos.

É fundamental que haja regras em nosso viver e que as nossas crianças tenham clareza disso, mesmo que as regras tenham caráter temporário e para determinadas situações. O que é diferente das leis familiares que costumam ser herdadas e estão vinculadas a valores históricos  e éticos, típicos de cada família e de cada sobrenome.

Quando trazemos uma criança ao mundo, temos o compromisso de apresentar- lhe o funcionamento social e esse compromisso se estende ao longo da vida. Um exemplo é apresentar a casa da vovó e dizer se a vovó permite, ou não, determinado comportamento. Outro exemplo é apresentar a escola, seu papel social e a necessidade de aceitar a sua rotina e tarefas. Ouço crianças dizendo: “Minha avó é legal, mas ela não deixa jogar bola na sala …”, ou ainda, “Eu gosto de ir para a escola, eu só não gosto de fazer lição…”Outro dia, eu estava no cinema, e uma criança queria assistir ao filme em pé . A mãe falava baixinho para a criança: “No cinema você tem de sentar. …Tem pessoas atrás de você…” Uma outra mãe, que estava ao lado dessa mãe, retrucou: “Deixe ela à vontade… Ela é criança!” Nós, adultos, temos o compromisso de ajudar as crianças a se desenvolverem e a construírem seu lugar no mundo. Quando poupamos nossas crianças, sob o discurso de que são crianças, perdemos a oportunidade de ajudá-las a se potencializar como pessoas, a viverem adversidade e frustrações  (que não se iludam, seus filhos terão de viver) e a perceberem a  necessidade de adequação a seu contexto social. Muitas crianças são cansativas para seus pais, professores e parentes, e inadequadas por desconhecerem o rol de comportamento social esperado em determinado local e situação.

Tal qual no jogo, percebemos que à medida que dominamos determinadas etapas, vamos obtendo poderes e mais liberdade para arriscar. No início temos de estar mais atentos e sempre nos reportando às regras estabelecidas. Assim é com a criança em seus primeiros anos de vida.

Estava em uma piscina quando uma menina lindinha, de apenas dois aninhos, chegou perto do escorregador, que, muito chamativo, esborrifava água para o alto. Ela, que mal andava, ameaçousubir os degraus para escorregar em direção a água, que naquele lugar era bem funda. Alguém, atento, de dentro da água falou firmemente: “Não! Sozinha não!” Ela olhou para dentro da piscina, olhou para a pessoa que estava ao meu lado e olhou para o escorregador. Vacilou, andou bem devagarzinho em direção ao escorregador, mirando firmemente seu interlocutor. A pessoa prontamente repetiu: “Não!” (com cara de não). Ela vacilou novamente, olhou para o escorregador e para a pessoa e… desistiu! Veio até à beira da água e ganhou um belíssimo abraço. Ao receber o limite adequado e na hora certa, a criança vai confiando nas pessoas de seu relacionamento íntimo e em si mesma. Mais tarde, ela saberá respeitar-se e poderá ir à piscina sozinha, sem que ninguém tenha que dizer o que é certo, errado ou perigoso. Daí sim, poderemos reformular as regras, abrir exceções, etc…

Na vida, nem sempre se ganha. Aliás, muitas vezes se perde. Quanto mais cedo uma criança aprende isto , mais cedo ela terá instrumentos, como o discernimento e a coragem para ela lutar pelo que quer.

É comum pais de crianças bem pequenas acreditarem que elas não se dão conta quando eles voltam atrás em suas decisões, vacilam ou simplesmente, deixam passar: “ Ela ainda é tão pequena, mais tarde ela aprenderá” crêem, erradamente, alguns pais.

É importantíssimo para as crianças, desde pequenas, irem compreendendo que os pais constroem regras para proteger, organizar e facilitar a vida dela. Ela deve confiar nisso. Deve ser lei  para a criança respeitar e obedecer a seus pais, para, ao longo de seus desenvolvimento, poder discutir as regras dessa obediência, até que, com o passar do tempo, essa lei possa tornar-se um grande, profundo e incomparável laço de família.

Mão é à toa que os antigos diziam “de pequeno é que se torce o pepino”.

Vamos deixar claro que o nosso papel na vida das nossas crianças para que elas possam ser vencedoras”

“Pais e Educadores – É proibido proibir?”

Isabel Parolin